Do que são feitas
- A história aconteceu a um amigo de um amigo: não é possível verificá-la, mas parece haver uma fonte.
- O local é reconhecível: aquela estrada, aquela residência universitária, o bairro vizinho.
- O enredo cabe num minuto e não precisa de pormenores.
- Há uma moral inquietante: não dês boleia a desconhecidos, não abras a porta, não andar sem companhia.
- O final é aberto ou assustador, mas não absurdo - caso contrário, ninguém acreditaria.
O primeiro ponto é o sinal principal. Referir um amigo de um amigo dá credibilidade e, ao mesmo tempo, impossibilita a verificação. A fonte está sempre um passo mais longe do que aquilo a que consegues chegar.
O segundo ponto explica por que razão as lendas sobrevivem quando as pessoas mudam de cidade. Ao ser recontada, a localização muda para um lugar local, e a lenda renasce de cada vez como uma história da terra. A mesma história existe em 100 cidades, e em cada uma consideram-na local.
As histórias que sobrevivem não são as mais verdadeiras, mas as mais fáceis de recontar. A seleção favorece a facilidade de transmissão, e a plausibilidade é apenas uma das condições.
Para que servem
Muitas lendas trazem um aviso que reflete um medo real da sua época. As histórias sobre raptos em centros comerciais espalharam-se quando os pais começaram, em grande escala, a deixar os filhos sozinhos em locais públicos.
Ou seja, o conteúdo muda juntamente com aquilo de que as pessoas têm medo. Antigamente, assustavam a floresta e a estrada; depois, os carros e os desconhecidos; agora, a internet e as encomendas. A estrutura mantém-se, enquanto o conteúdo é atualizado.
O segundo motivo é o prazer de contar uma história. Uma história assustadora dá atenção a quem a conta e um susto seguro a quem a ouve. É um mecanismo antigo, o mesmo que está por trás das histórias assustadoras contadas à volta de uma fogueira.
Os danos merecem uma menção à parte. Algumas destas histórias causam problemas: os rumores sobre medicamentos e doenças levam as pessoas a recusar tratamento, enquanto as lendas sobre grupos perigosos provocam pânico e perseguição de pessoas inocentes.
Também é útil perceber a rapidez com que se espalham. Antigamente, uma história destas atravessava um país ao longo de anos; agora pode dar a volta ao mundo num dia e, acompanhada por uma fotografia ou um vídeo, parece muito mais convincente do que qualquer história contada oralmente.
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Fontes
- Os folcloristas estudam as lendas urbanas como narrativas persistentes, com as características de uma fonte anónima, de um local específico e de um aviso moral
- o seu conteúdo reflete as preocupações sociais atuais