Os ciúmes surgem da comparação, não dos factos
Para que os ciúmes surjam, são necessárias três coisas ao mesmo tempo: uma relação que te é importante, a sensação de que está ameaçada e uma terceira pessoa com quem te comparas. Retira qualquer um dos elementos e não haverá reação. É por isso que não sentes ciúmes de um ex que te é indiferente, mesmo que ele tenha começado uma relação com alguém.
Depois entra em ação um mecanismo a que os psicólogos chamam manutenção da autoestima: a superioridade de outra pessoa magoa mais na área que usas para construir a imagem que tens de ti. E magoa tanto mais quanto mais próxima de ti essa pessoa estiver. Uma amiga que é melhor do que tu naquilo de que te orgulhas afeta-te mais do que uma desconhecida com as mesmas qualidades. As barras abaixo mostram uma ordem, não uma intensidade medida: o que é fiável aqui é a sequência.
Três coisas que os ciúmes dizem sobre ti
Se apanhares os ciúmes antes de se transformarem num interrogatório, podes retirar deles um retrato preciso. Não do teu parceiro, mas de ti. Mostram o que é importante para ti: aquilo que não se quer perder, por vezes de forma inesperada, não a própria pessoa, mas o teu lugar ao lado dela. Mostram onde a tua autoestima é vulnerável: não te comparas em todos os aspetos ao mesmo tempo, mas em um ou dois, e esses são a tua principal medida de valor. E mostram o que esperas da proximidade: a reação surge quando é quebrada uma regra implícita, sobre a qual nunca chegaram a falar em voz alta. As pessoas com um estilo de vinculação ansioso sentem ciúmes com mais frequência e intensidade; esta ligação repete-se de forma consistente na investigação, mas é uma ligação, não uma sentença sobre o teu caráter: o próprio estilo de vinculação muda com as experiências de proximidade.
A ligação entre a vinculação ansiosa e os ciúmes repete-se de forma consistente em diferentes estudos, mas continua a ser uma ligação, não uma causa
O sentimento, por si só, não faz de ti possessivo nem fraco: os ciúmes foram documentados em culturas muito diferentes onde foram estudados. A diferença não está em existirem ou não, mas no que acontece a seguir.
A fronteira é clara. Enquanto os ciúmes permanecerem um sentimento, um aperto, uma pontada, uma vontade de receber atenção, são informação. Assim que se transformam numa ação, como verificar o telemóvel, reconstituir o percurso da noite ou exigir explicações, já não se trata dos teus sentimentos, mas de controlo, e este trabalha contra a relação que estás a tentar preservar.
É mais ou menos aqui que passa a fronteira: à esquerda, um sentimento de que podes falar; à direita, a vontade de verificar e controlar.
Porque é que os ciúmes afetam mais quando se trata de uma amiga próxima?
O que muda quando os ciúmes se transformam em verificar o telemóvel?
Fontes
- Os ciúmes como reação a uma ameaça a uma relação valorizada constituem o modelo clássico de White e Mullen (1989)
- DeSteno e Salovey mostraram, na década de 1990, que a superioridade de outra pessoa magoa mais numa área importante para a autoestima
A seguir na série «Ciúmes»
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