Um roubo começa muito antes da noite da invasão
Em fevereiro de 2003, o conteúdo de mais de 100 cofres foi levado do cofre-forte do Centro de Diamantes de Antuérpia. A porta era protegida por uma fechadura com combinação, contatos magnéticos, sensor de movimento, detector de calor e sensor sísmico. Do lado de fora, os invasores não arrombaram nada: dois anos antes, o organizador do grupo, Leonardo Notarbartolo, havia alugado um escritório no mesmo prédio como comerciante de diamantes. Com um crachá de acesso, ele entrava durante o dia como todo mundo e observava tranquilamente onde ficavam os sensores e como a segurança fazia as rondas pelos andares.
Em Fortaleza, em 2005, a mesma lógica funcionou, só que do lado de fora. O grupo alugou uma casa ao lado do Banco Central e disse aos vizinhos que vendia grama artificial: isso explicava os caminhões e os sacos de terra que retiravam todos os dias. Eles cavaram um túnel de cerca de 80 metros por aproximadamente 3 meses, com escoramentos, iluminação e ventilação. O túnel chegou por baixo ao piso de concreto do cofre-forte.
Por que feriados prolongados são metade do plano
Toda a preparação serve para uma coisa: criar uma janela em que ninguém olhará lá dentro. O cofre-forte de Antuérpia foi arrombado durante um fim de semana, o túnel em Fortaleza também chegou ao destino durante um fim de semana e, no Hatton Garden, em Londres, em 2015, eles entraram no subsolo de uma empresa de cofres durante o feriado da Páscoa, 4 dias consecutivos sem expediente. Ali, uma equipe já mais velha perfurou uma parede de concreto com uma broca industrial de diamante, não conseguiu entrar na primeira noite, foi embora e voltou na noite seguinte: o tempo de sobra permitiu que errassem.
- Horas: a noite
- Dias: feriados prolongados
- Semanas: rotina e ensaio
- Meses: aluguel e disfarce
E quase tudo desmorona depois. O grupo de Antuérpia foi descoberto por causa do lixo: sacos com papéis e restos do cofre-forte foram jogados em uma faixa de mata perto da rodovia. A equipe de Hatton Garden foi presa por causa das câmeras, que registraram o carro, e das conversas que eles tiveram depois do crime. A invasão em si, a essa altura, tinha sido impecável. O que deu errado foi aquilo para o que ninguém havia se preparado: como viver depois.
Por isso, histórias de ousadia quase sempre acabam sendo histórias de paciência. Alguns detalhes são conhecidos apenas pelos relatos dos participantes: Notarbartolo contou a jornalistas uma versão em que o grupo treinou em uma réplica do cofre-forte, mas isso não pode ser verificado. A parte verificável, porém, o aluguel, o disfarce e o calendário, coincide em diferentes casos.
Por que o grupo precisa de um motivo legítimo para ficar perto do alvo?
Por que esses roubos são planejados para feriados prolongados?
Fontes
- Wired, "The Untold Story of the World's Biggest Diamond Heist" (2009)
- reportagens e registros judiciais sobre os casos do Banco Central em Fortaleza (2005) e de Hatton Garden (2015)
A seguir na série “Grandes roubos”
2 artigos na íntegra no site, mais 3 no app
