A casa como um espaço em branco
A razão pela qual uma propriedade foi abandonada costuma ser aborrecida: os herdeiros não chegaram a acordo sobre a herança, o proprietário foi-se embora, o terreno aguarda construção ou a renovação acabou por ficar mais cara do que a demolição. Ninguém conhece nem verifica estas explicações, porque não interessam a ninguém.
Mas a própria casa fornece bastante material: rangidos, escuridão, janelas partidas, objetos deixados para trás. Quem espreita lá para dentro sente um medo bem real, e esse medo exige uma causa. É assim que surge uma história para explicar a sensação.
Aparece uma casa vazia. A verdadeira razão costuma ser banal e desconhecida de toda a gente.
Alguém sente medo lá dentro. Um rangido, frio, a sensação de uma presença alheia. A sensação é real, mas não há explicação.
A casa ganha uma história. Muitas vezes, aproveita-se uma tragédia local de qualquer época, mesmo que tenha acontecido noutro lugar.
A recontagem acrescenta pormenores. Cada narrador acrescenta o ano, o nome, a janela onde aparece uma silhueta. Ao fim de duas gerações, a história está cheia de pormenores.
O terceiro passo é o mais revelador. Há normalmente um acontecimento real algures na região, e a lenda agarra-se a ele porque isso faz com que pareça verificável: as pessoas mais velhas podem confirmar que algo assim aconteceu mesmo. Mas nada liga o acontecimento àquela casa específica.
Pormenores recorrentes
- Luz na janelaO reflexo dos faróis ou do sol poente num vidro intacto. É o pormenor mais comum em todas estas histórias.
- Criança ou mulher de brancoUma figura que inspira pena, e não ameaça. Estas imagens são mais fáceis de memorizar e recontar do que as assustadoras.
- Uma porta que não abreNormalmente, é apenas um caixilho empenado. Na história, transforma-se num quarto onde não se pode entrar.
Estas semelhanças não se explicam pela comunicação entre os narradores, mas pelo facto de todas as casas terem características físicas semelhantes e todas as pessoas percecionarem as coisas de forma semelhante. Há rangidos, correntes de ar e jogos de luz em todo o lado, e as pessoas explicam-nos de forma parecida.
Depois surgem os episódios noturnos. Quem passa a noite num lugar assim pode muito bem experienciar um estado entre o sono e a vigília, em que a consciência já acordou, mas o corpo ainda não, e sentir uma presença no quarto. A história soa ao depoimento de uma testemunha ocular.
Com que começa normalmente uma lenda sobre uma casa abandonada?
Porque coincidem os pormenores nas histórias sobre casas diferentes?
Fontes
- Os mecanismos através dos quais as lendas urbanas ganham pormenores ao serem recontadas são descritos nos estudos de folclore
- a sensação de uma presença ao acordar é explicada por um estado entre o sono e a vigília
A seguir na série «Lendas urbanas»
2 artigos na íntegra no site, mais 3 na app
