Um país contra o outro
Países vizinhos, com culturas e religiões semelhantes, apresentam percentagens incomparáveis de pessoas que consentem. Nuns, quase toda a gente concorda; noutros, apenas alguns pontos percentuais. Ainda assim, os inquéritos mostram que as pessoas têm uma atitude mais ou menos igual perante a ideia em si.
A diferença está na forma como a escolha é apresentada. Onde se considera que consentiste enquanto não declarares o contrário, poucas pessoas recusam. Onde tens de declarar pessoalmente o teu consentimento, poucas pessoas consentem. Em ambos os casos, a grande maioria limita-se a não fazer nada.
O que fica por defeito não é um espaço vazio. É uma escolha já feita por quem elaborou o formulário.
Podes verificar isso na tua própria vida. Pensa em quantas definições do teu telemóvel alteraste e quantas ficaram tal como vieram de fábrica. Aqui, a diferença entre as pessoas é pequena: quase toda a gente deixa quase tudo como está.
Porque é que uma caixa de verificação tem tanto poder
Há várias razões, e são todas aborrecidas. Alterar uma definição exige esforço: tens de encontrar o formulário, perceber como funciona e assiná-lo. Além disso, o que fica por defeito é interpretado como uma recomendação: se está definido assim, provavelmente é o habitual e o correto.
Há uma terceira razão, a mais importante neste tema. A decisão é desagradável, porque diz respeito à tua própria morte, e apetece-te adiá-la. Uma decisão adiada passa automaticamente a ser aquilo que está definido por defeito.
O mesmo efeito funciona em todo o lado onde há um formulário. Contribuições para um plano de pensões, subscrições de boletins informativos, consentimento para o tratamento de dados, renovação automática: em todos os casos, a percentagem de pessoas que escolhe a opção predefinida acaba por ser esmagadora.
Uma ressalva importante
Uma percentagem elevada de pessoas que consentem não significa uma diferença igual no número de transplantes. Depois entram em jogo a organização do sistema, o número de dadores adequados e as conversas com familiares, a quem em muitos países se pergunta de qualquer forma. O que fica por defeito decide o primeiro passo, não todo o caminho.
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Fontes
- Comparação das percentagens de consentimento em países com diferentes opções predefinidas - Eric Johnson e Daniel Goldstein, Science, 2003. A relação entre estas percentagens e o número real de transplantes é mais fraca e depende da organização do sistema