Como se espalhou
Observações. No final do século XIX, um observador desenha uma rede de linhas finas no disco do planeta, no limite do que um telescópio consegue distinguir.
O nome. Chama-lhes uma palavra que, na sua língua, significa tanto um curso de água natural como um canal construído pelo ser humano.
A tradução. As publicações em inglês escolhem o segundo significado. Uma descrição do relevo transforma-se num relato sobre estruturas.
O desenvolvimento. Outro astrónomo constrói um observatório, desenha mapas da rede e publica livros sobre uma civilização que salva o planeta da aridez.
O quarto passo levou a ideia ao grande público. Os livros sobre uma civilização marciana que regava os desertos com água do degelo dos polos eram lidos como ciência e definiram a imagem de Marte na cultura durante décadas.
A observação em si era honesta. No limite da resolução, o olho tende a ligar pontos dispersos e a transformá-los em linhas - e diferentes observadores, sabendo das linhas, começaram também a vê-las.
Como terminou
As imagens obtidas por sondas que passaram por Marte, na década de 1960, encerraram a questão. Não mostravam linhas - apenas crateras, planícies e poeira. Uma série de fotografias refutou meio século de observações.
É curioso que, já nessa altura, alguns astrónomos tivessem dúvidas. Os grandes telescópios não mostravam as linhas, e alguns sugeriam que eram uma característica da perceção, não da superfície.
Esta história tornou-se um exemplo de manual por duas razões. Mostra tanto como uma tradução pode mudar o significado como a forma como as expectativas influenciam aquilo que uma pessoa vê em condições de observação difíceis.
Também ficou algo útil. O interesse por Marte despertado por estes livros influenciou várias gerações de investigadores e determinou em grande medida por que razão este planeta em particular é estudado com tanta atenção.
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Fontes
- As observações de estruturas lineares na superfície de Marte, no final do século XIX, foram descritas com um termo que podia significar tanto um curso de água natural como um canal artificial
- na versão inglesa, o segundo significado acabou por se impor. A existência dessas estruturas não foi confirmada quando foram obtidas imagens por sondas interplanetárias na década de 1960