Como funcionava
Os castigos baseados na vergonha seguiam sempre o mesmo padrão: a pessoa era exposta publicamente num lugar e a uma hora específicos, quando aí se concentrava mais gente. O objetivo não era causar dor física, mas garantir que toda a gente via.
As consequências surgiam não durante o castigo, mas depois. Os vizinhos deixavam de emprestar dinheiro, os empregadores recusavam-se a contratar a pessoa e o casamento tornava-se impossível. Não havia forma de recuperar a posição: mudar para outra cidade exigia dinheiro que, geralmente, a pessoa não tinha.
A vergonha funcionava como uma perda prolongada de direitos, apresentada como algumas horas na praça. O castigo durava horas; as consequências duravam décadas.
Porque foram abandonados
A primeira razão era a falta de controlo. As multidões não se limitavam a observar: as fontes descrevem casos em que as pessoas expostas eram apedrejadas, mutiladas e, por vezes, mortas. O juiz determinava a hora do castigo, mas acabava por acontecer outra coisa.
A segunda era a desproporção. O mesmo castigo por um pequeno furto podia arruinar a vida de uma pessoa pobre, mas quase não afetava alguém rico, com contactos e meios para partir.
A terceira era o crescimento das cidades. Numa cidade grande, a pessoa exposta na praça já não é reconhecida pelos vizinhos, porque estes deixaram de existir no sentido antigo. Um castigo pensado para uma comunidade deixou de funcionar à medida que a comunidade desaparecia.
Curiosamente, o mecanismo regressou sob uma forma diferente. Publicar o nome de alguém na internet funciona de maneira semelhante: o castigo é breve, mas as consequências para o trabalho e a reputação são duradouras, e ninguém avalia melhor a sua proporcionalidade.
Porque é que a vergonha pública era pior do que a prisão?
Porque é que estes castigos foram abandonados?
Fontes
- Os castigos baseados na vergonha pública eram aplicados nas cidades europeias até ao século XIX
- a sua abolição é associada à falta de controlo das multidões, à desproporção das consequências e ao enfraquecimento do controlo comunitário nas cidades em crescimento
A seguir na série «Vergonha e culpa»
4 artigos na íntegra no site, mais 4 na app
