Uma série funciona mais como companhia do que como ruído
Se fosse apenas uma questão de som, um rádio ou uma ventoinha chegavam. Mas a tua mão procura outra coisa: pessoas que falam entre si e não estão à espera que te juntes.
A este tipo de ligação chama-se parassocial. Conheces-lhes as entoações, sabes como acaba a discussão e reconhece-las logo na primeira fala, mas elas não sabem nada sobre ti. Os investigadores criaram o termo em 1956: perceberam que os espectadores tratavam uma pessoa no ecrã quase como alguém que conheciam e descreveram isso numa só frase.
A ilusão de uma relação cara a cara com uma pessoa no ecrã.
O essencial nesta ligação é ser unilateral. Uma série não te pergunta como correu o dia, mas também não repara que não estás nos teus melhores dias, não leva o teu silêncio a peito nem espera que mantenhas a conversa. Numa noite em que não tens energia para pessoas reais, é exatamente a dose de presença que consegues suportar.
Porque costuma ser algo antigo, não novo
Este último ponto é o mais importante. Uma série nova dá trabalho: memorizar nomes, tentar adivinhar como acaba e acompanhar a tensão. Uma conhecida enche a divisão de vozes e não pede nada em troca. Por isso, depois de um dia difícil, ganha não uma novidade, mas algo que já viste três vezes.
Isto também foi testado diretamente. Fizeram as pessoas sentir que não pertenciam a um grupo e depois pediram-lhes que escrevessem sobre a sua série preferida, e a sensação de solidão diminuiu. O efeito foi pequeno e observou-se sobretudo em estudantes, por isso é uma pista sobre o mecanismo, não uma grandeza medida.
Quando o ruído de fundo ajuda e quando ocupa espaço
Uma noite num apartamento vazio costuma seguir o mesmo arco. No início, está tudo silencioso e bem. Depois, a atenção, sem nada onde se fixar, volta-se para dentro, e os teus pensamentos tornam-se o som mais alto à tua volta. Uma abertura conhecida corta esse volume.
Pensamentos
Volume dos pensamentos ao longo da noite: o pico chega antes de ligares o som de fundo
Funciona como um analgésico: tira o pico da dor e não trata nada. A diferença entre «ajuda» e «substitui» vê-se por um sinal: tiveste ou não pelo menos um contacto humano real durante a noite. Enquanto o ruído de fundo te ajudar a chegar ao sono, está a cumprir a sua função. Se ocupar o lugar de uma conversa que adias há 3 dias, o vazio não diminui; fica apenas mais silencioso.
Porque te apetece mais ver uma série antiga depois de um dia difícil?
O que deves fazer se uma série está a substituir uma chamada que adias?
Fontes
- Relações parassociais, Horton e Wohl, revista Psychiatry, 1956. Séries preferidas como substituto da interação social, Derrick, Gabriel e Hugenberg, 2009
- efeito pequeno, amostras de estudantes
A seguir na série «Solidão»
3 artigos na íntegra no site, mais 3 na app
