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O que as crianças lembram da guerra

Redação Miqo · 1 fonte

A memória não se forma em ordem

A capacidade de ligar acontecimentos em uma história se desenvolve aos poucos e ainda é fraca antes da idade escolar. As sensações, por sua vez, são registradas desde o começo. O que fica é aquilo que não precisa de uma história: frio, escuridão, o gosto de algo desconhecido, um som que fazia todo mundo ficar imóvel.

  1. Sensações: cheiro, frio, som
  2. Rostos e vozes de adultos
  3. Ordem e sentido dos acontecimentos

No topo da pirâmide estão as coisas que resistem melhor; na base, as que se perdem primeiro. Os adultos costumam se lembrar do contrário: das datas e da sequência, enquanto os pequenos detalhes desaparecem. Por isso, o relato de uma criança e o de um adulto sobre o mesmo dia podem soar como relatos de dias diferentes.

O que fica com mais frequência

É possível notar que quase não há guerra propriamente dita nessa lista. A criança não se lembra do curso dos acontecimentos, mas da ruptura do que era familiar: a escola desapareceu, a casa mudou, os adultos mudaram. Essa ruptura, e não os perigos em si, costuma ser a parte mais difícil.

Como as lembranças mudam depois

Então começa o preenchimento das lacunas. A família conta o que estava acontecendo naquela época, e os fragmentos vão se encaixando. Anos depois, fica difícil separar o que a pessoa viveu do que ouviu: algo que foi contado por outra pessoa parece uma lembrança própria, porque o cérebro não identifica sua fonte.

Isso não significa que essas lembranças sejam falsas. As sensações costumam ser precisas, mas a ligação com uma data, um lugar e as causas vem da versão da família. Por isso, historiadores usam os testemunhos infantis com cautela e verificam separadamente a sequência factual.

Observações dos anos do pós-guerra revelaram mais uma coisa importante. A gravidade das consequências para as crianças dependia menos da proximidade do perigo do que da permanência de um adulto estável por perto. A presença de alguém que se comportava de forma previsível acabou sendo a melhor proteção disponível.

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Fontes

  1. O papel de um adulto estável para as crianças durante a guerra foi descrito nas observações de Anna Freud e Dorothy Burlingham em abrigos infantis de Londres nos anos 1940. A mistura entre o que foi vivido e o que foi ouvido é uma característica conhecida da memória autobiográfica