Por que o navio não voltava vazio
Uma viagem pelo Atlântico era longa, e um navio que levasse mercadorias na ida e voltasse vazio não se pagava bem. O modelo consolidado no século XVIII resolvia exatamente esse problema: havia carga em cada trecho da viagem.
Dos portos europeus saíam tecidos, metais, armas e bebidas alcoólicas, trocados no litoral da África Ocidental por pessoas capturadas no interior. Pelo oceano, o porão seguia cheio de pessoas. Na volta para a Europa, vinham açúcar, tabaco e, mais tarde, algodão, cultivados por aqueles que haviam sido trazidos em viagens anteriores.
- Armas e tecidos
- Pessoas
- Açúcar e algodão
Cada trecho era uma transação comercial comum, com uma contabilidade comum. Foi isso que tornou o tráfico de escravizados parte da economia, e não um canto sombrio dela: não foram necessárias regras próprias, as regras gerais bastaram.
Quem lucrava sem ir para o mar
Uma indústria de serviços cresceu ao redor dessas viagens. Era possível lucrar sem jamais subir a bordo, e a maioria dos participantes lucrava exatamente assim.
O detalhe mais revelador do mecanismo é o seguro. A morte de uma pessoa no porão era registrada como perda de carga. Em 1781, a tripulação do navio britânico "Zong" lançou mais de 100 pessoas ao mar, e os proprietários exigiram o pagamento das seguradoras; dois anos depois, um tribunal analisou o caso como uma disputa sobre carga. A repercussão se tornou um dos argumentos dos abolicionistas britânicos.
As perdas eram previstas desde o início. Segundo estimativas da base de dados de viagens atlânticas, ao longo de todo o período, aproximadamente 12,5 milhões de pessoas foram embarcadas, e aproximadamente 10,7 milhões chegaram às Américas. A diferença corresponde às pessoas que morreram no caminho e, nos registros contábeis, aparecia ao lado do açúcar estragado.
Enquanto isso, a responsabilidade se dissolvia. O proprietário do navio respondia pela viagem, a seguradora pelo risco, o banqueiro pela letra, o fabricante pela matéria-prima. Ninguém tinha a visão do todo, e o pedaço de cada um parecia um trabalho normal. Até hoje, historiadores debatem quanto desse lucro financiou a Revolução Industrial: as estimativas variam muito.
Se você esperava uma história sobre vilões individuais, o mecanismo se revela mais banal e mais assustador. O tráfico de escravizados não precisou ser incorporado especialmente à economia: usava as mesmas ferramentas empregadas para transportar tecidos e grãos, e aboli-lo exigiu desmontar uma indústria inteira, com fornecedores, credores e clientes.
Por que uma viagem atlântica era lucrativa em cada trecho?
Por que era fácil não perceber a responsabilidade pelo tráfico?
Fontes
- Estimativas do número de viagens e de pessoas: Trans-Atlantic Slave Trade Database (SlaveVoyages.org)
- o caso do navio "Zong": os acontecimentos de 1781 e o processo inglês de 1783, além dos trabalhos de historiadores do abolicionismo britânico
A seguir na série “Tráfico de escravos”
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