Por que a demanda por pessoas escravizadas não acabava
Um produto comum mais cedo ou mais tarde satura o mercado: você compra e não precisa de mais. As plantações funcionavam de outro jeito. Nas ilhas açucareiras do Caribe e no Brasil, as pessoas morriam mais rápido do que nasciam: trabalho exaustivo, doenças desconhecidas e, além disso, eram transportados principalmente homens jovens. O número de trabalhadores não se recuperava sozinho, e as perdas eram compensadas com novas compras: a demanda nunca acabava.
Se você imaginava o tráfico de pessoas escravizadas principalmente como o Sul algodoeiro dos Estados Unidos, essa é apenas uma pequena parte da história. Cerca de 12,5 milhões de pessoas foram colocadas em navios, e aproximadamente 10,7 milhões chegaram às Américas. A maioria esmagadora não foi para o algodão, mas para plantações de açúcar e café no Caribe e no Brasil.
Para onde iam as pessoas transportadas pelo Atlântico
Não era apenas uma questão de crueldade dos proprietários, mas também de demografia. Onde a população começava, com o tempo, a crescer sozinha, a importação deixava de ser necessária. Onde isso não acontecia, os navios eram necessários repetidamente, durante todos os anos em que as plantações funcionassem.
Os lucros se espalhavam por três continentes
O tráfico não era conduzido apenas por capitães. Tecidos, metais e armas usados nas trocas eram produzidos em oficinas europeias. Estados africanos locais e intermediários forneciam pessoas capturadas no litoral: os europeus quase nunca avançavam pelo interior do continente, e não eram eles que faziam a captura nem o transporte até a costa. E os portos, estaleiros e o setor de seguros dependiam da carga de retorno: açúcar, café e tabaco.
Cerca de oito em cada dez pessoas transportadas foram colocadas em navios depois de 1700
Ou seja, a máquina não estava perdendo força no fim: suas décadas de maior movimento ocorreram no final do século XVIII, poucos anos antes da proibição britânica de 1807. O setor era legal, com contratos, seguros e tribunais, e sair dele sozinho significava simplesmente entregar sua fatia a um concorrente.
É comum dizer que o tráfico se extinguiu por conta própria. As evidências apontam mais para o sentido contrário: quando veio a proibição, o tráfico ainda dava lucro, e encerrá-lo custou caro à Grã-Bretanha. Durante décadas depois, sua marinha interceptou navios estrangeiros no litoral da África. O debate existe desde os anos 1940 e continua sem solução definitiva, mas hoje prevalece a visão de que a abolição foi uma decisão política, não consequência de prejuízos.
"O tráfico de pessoas escravizadas acabou porque deixou de dar lucro" - evidências fracas
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Fontes
- Estimativas de viagens e pessoas: banco de dados Slave Voyages (Trans-Atlantic Slave Trade Database). Debate sobre as causas da abolição: Eric Williams, "Capitalismo e escravidão" (1944), e Seymour Drescher, "Econocídio" (1977)