Por que razão eram proibidos: três acusações
A primeira acusação era contra a fé. O Vaticano manteve a sua própria lista de publicações proibidas durante mais de quatro séculos. Dela fizeram parte o "Diálogo", de Galileu, condenado no julgamento de 1633, livros de Descartes e Hume e a "Crítica da Razão Pura", de Kant. Já "A Origem das Espécies", de Darwin, nunca entrou na lista. Não se proibia a ciência em geral, mas as afirmações que contrariavam a explicação da Igreja sobre o mundo e o lugar do ser humano nele.
A segunda acusação era a revolta: textos capazes de incitar quem lê contra o poder eram apreendidos e, por vezes, queimados em público, como na Alemanha em maio de 1933. A terceira era a obscenidade, e era a que mais correspondia às ideias de decoro de cada época. Em 1857, o procurador francês Ernest Pinard julgou dois livros de uma só vez: "Madame Bovary" e "As Flores do Mal". Flaubert foi absolvido, Baudelaire foi multado e seis poemas foram retirados da coletânea - a proibição só foi levantada em 1949.
O mesmo livro, proibido por lados opostos
"As Aventuras de Huckleberry Finn" foi retirado das prateleiras quase assim que saiu: em março de 1885, a comissão da biblioteca de Concord considerou o romance grosseiro e próprio apenas para os bairros de lata. Cem anos depois, o livro voltou a ser retirado - desta vez dos programas escolares e por causa de um insulto racial que se repete mais de duzentas vezes no texto.
As acusações são opostas, mas o motivo é o mesmo: proteger quem lê de danos. Só muda aquilo que, naquele momento, se considera prejudicial. Por isso, uma lista de livros proibidos diz mais sobre quem a elaborou do que sobre os livros que contém.
Provavelmente já reparaste que hoje a discussão sobre um livro não começa num ministério, mas num grupo de conversa da escola ou numa reunião do conselho da biblioteca. E a queixa raramente vem de alguém que leu o livro e se indignou: mais frequentemente, é uma lista de títulos pronta, vinda da campanha de outra pessoa.
das queixas às bibliotecas dos EUA pediam a remoção de uma lista de títulos, e não de um só livro
Quem decide o que sai da prateleira
Durante quatro séculos, a decisão principal era tomada antes da impressão: um censor ou uma comissão eclesiástica punha um carimbo, e o livro simplesmente não era publicado. A vaga atual funciona ao contrário - o livro é publicado, discute-se depois de sair, e a decisão pode ser contestada e o livro voltar à prateleira. Isto não significa que a censura estatal tenha desaparecido: em muitos países, uma entidade oficial continua a aprovar a lista de obras proibidas.
E há mais uma coisa de que quem faz listas costuma arrepender-se. Em 1960, um tribunal britânico autorizou a publicação sem cortes de "O Amante de Lady Chatterley" - duzentos mil exemplares da primeira tiragem esgotaram num dia. O processo funcionou como publicidade.
Porque pode o mesmo livro ser proibido por razões diferentes?
O que deves ver primeiro numa lista de livros proibidos?
Fontes
- Index Librorum Prohibitorum (última edição de 1948, abolido em 1966)
- documentos dos processos franceses de 1857
- relatórios da American Library Association sobre livros contestados em 2022-2023
A seguir na série «Censura»
2 artigos na íntegra no site, mais 2 na app
